Combate ao Racismo 03/11/2022

Negros só entravam na faculdade de medicina como cadáveres

 Foto: Olga Leiria | Ag. A TARDE

Depois que assumiu a cátedra optativa História da Medicina na Bahia, na Faculdade de Medicina da Ufba (Famed), o professor Eduardo Faria Borges dos Reis sentiu falta de material didático adequado para o curso. Começou então uma movimentação com outros professores e pesquisadores para criar esse conteúdo.

 

A pesquisa aprofundou-se durante a pandemia, com entrevistas a historiadores e médicos e o horizonte foi se expandindo. Com a aquiescência da Congregação da Famed, surgiu o projeto de uma coleção de livros. Já estão prontos 77 capítulos, divididos entre os quatro volumes que devem sair agora em novembro, durante a Flipelô, pela Edufba, e um quinto volume a ser lançado em março de 2023. A pesquisa aborda desde a inserção da antiga Faculdade de Medicina do Terreiro de Jesus, a primeira do país,  até a relação do ofício médico com as artes, a religião e a política, passando pelos saberes medicinais dos povos originários da terra que os portugueses  chamariam de Bahia.

Para explicar a importância do projeto, que pretende retomar o protagonismo existente nos tempos da Gazeta Médica da Bahia, A TARDE entrevistou o professor Eduardo Reis, que afirma:  “Vamos contar um pouco dessa nossa ousadia de produzir dentro da Bahia conhecimentos da área médica que hoje são reconhecidos no mundo todo”.

Pelo que se entende, a ideia de produzir livros sobre a história da Medicina na Bahia surgiu no contexto acadêmico. Conte, por favor, como foi isso e quantas pessoas estão envolvidas no projeto.

É um esforço coletivo de coordenação. Tivemos 15 pessoas coordenando esse projeto e citamos mais de 400 autores. A gente começou a fazer esse esforço em uma disciplina na faculdade, optativa, chamada História da Medicina na Bahia, a partir da necessidade de ter um material didático. A coisa ganhou uma dimensão incrível e aí dialogamos com a faculdade.  A congregação aprovou por unanimidade que esse esforço fosse permanente, escrever as histórias da Medicina na Bahia.  A congregação aprovou a edição de uma série de livros. Esses quatro que saem agora são os primeiros. Mas já tem um outro quase pronto, o quinto está 87% editado. E vamos fazer um simpósio, de 2 a 5 de novembro, no Terreiro de Jesus, sobre a história da Medicina, que vai gerar também outro livro.  A intenção, aprovada e determinada pela faculdade, é escrever vários livros sobre a história da Medicina.  Esses são os quatro primeiros volumes.

Determinou-se a quantidade de livros?

Não, está em aberto. Estamos correndo contra o tempo porque precisamos fazer o lançamento dentro do simpósio e, coincidentemente, vai ser dentro da Flipelô. Por isso, estamos correndo, perdendo noite, para liberar esses quatro livros. É neste panorama que estamos fazendo o planejamento.  Mas como está muita correria, talvez a Edufba não faça logo tudo. Depois, ela vai liberar todos. Pode haver algum erro, algum ajuste no percurso, mas está prevista a saída de quatro volumes no dia 4.

 

Quais são os temas desses quatro volumes?

O primeiro volume foi concebido a partir da implantação da Faculdade de Medicina da Bahia, a primeira do Brasil, em 1808.  A faculdade irradiando esses conhecimentos, como era o equivalente ao ensino médio na época, como era o ensino de anatomia, de fisiologia, a presença negra na faculdade, o protagonismo estudantil, a presença feminina. No volume dois, a gente faz um diálogo com as especialidades médicas clínicas, a história da clínica médica, o início da formação, a história da pediatria, da cardiologia, da nefrologia, da geriatria. 

O terceiro volume aborda as especialidades cirúrgicas, a cirurgia geral, a história da cirurgia, cirurgia abdominal, cirurgia torácica, a otorrino, a ginecologia, as especialidades diagnósticas, como a radiologia. O quarto volume vai ser sobre as derivações da Medicina.  Medicina e cultura, medicina e religião, medicina e arte, medicina e a luta das Mulheres, dois capítulos sobre medicina e política, medicina e saúde indígena.  O quinto, que a gente não conseguiu terminar ainda e deve sair em março, vai ser sobre as histórias das doenças.

A abordagem vai contar a história a partir das doenças, de como elas se deram na Bahia, como foi a movimentação social, como no caso da tuberculose, a hanseníase, o albinismo, a anemia falciforme, o alcoolismo. A gente parte de uma concepção de doenças que contam a história da Bahia. Esse livro só não vai sair agora porque a gente não teve perna.

Essa pesquisa é somente a partir da instalação da Faculdade ou aborda saberes prévios?

Para ser sincero, o nosso marco é mais a faculdade.  Fora alguma coisa indígena que a gente aborda, o marco é mesmo a faculdade.

E o que se sabe sobre a medicina indígena?

Os jesuítas fizeram um dicionário sobre expressões do adoecimento, de como se chamavam os problemas de saúde e de como eram tratados esses problemas, as plantas nossas da época usadas pelos índios.  Havia uma ação muito interessante nos cuidados de saúde e os jesuítas catalogavam isso, bem antes da Faculdade de Medicina. A gente fez um estudo contando um pouco isso, até os dias atuais. Das políticas.  O Ministério da Saúde tem uma política de saúde indígena.  E a medicina indígena é bem anterior à medicina oficial. Assim como a chinesa, que tem mais de cinco mil anos. A gente fala de homeopatia e acupuntura também,  no volume dois, com um enfoque mais baiano. Algumas coisas extrapolam um pouco, mas a gente quer muito a Bahia irradiando isso.

A gente perdeu espaço. Fomos a primeira faculdade de Medicina do Brasil, a do Rio veio meses depois. E temos uma história bonita de publicações, de ser uma fonte de produção. Chegamos a ter a Gazeta Médica (circulou regularmente de 1866 a 1934), uma publicação baiana com repercussão internacional, mas fomos perdendo espaço para o Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul. 

Esse esforço nosso é uma tentativa de retomar um pouco esse papel que perdemos. A Gazeta Médica era uma publicação fantástica, pioneira. Tivemos alguns médicos estrangeiros que ajudaram bastante.  Chegamos a ter prática de laboratório, de anatomopatologia, a escola tropicalista.  A gente vai contar um pouco disso, dessa nossa ousadia de produzir dentro da Bahia conhecimentos da área médica que hoje são reconhecidos no mundo todo.

Exemplos?

Tem um artigo sobre filariose, a elefantíase.  A parte das anemias devido à verminose. Teve uma degeneração que as pessoas escravizadas apresentavam no dedo mindinho, que se usava a amputação.  Uma dor terrível.  Isso foi parte da medicina tropicalista. Tem o estudo das cobras venenosas, que a gente foi pioneiro. Muita coisa interessante que se esqueceu. Talvez com essa ousadia de lançar os livros a gente volte a ter um certo protagonismo.

O que foi levantado sobre a presença negra na Faculdade?

Tem um capítulo muito forte sobre os negros. Houve até um movimento dentro da Faculdade para que esse capítulo fosse escrito por pessoas negras, como se fosse um manifesto.  Historicamente, os negros só entravam na faculdade como cadáveres, os indigentes que depois de mortos eram estudados pela elite branca, ou como funcionários, as pessoas que trabalhavam no espaço de anatomia, carregando os cadáveres.Uma situação que levou quase dois séculos.

Relatamos o caso de pessoas como Juliano Moreira (fundador da psiquiatria no Brasil). Os primeiros professores negros, na metade do século 19, foram Francisco Sabino Alves, Malaquias Álvares dos Santos, Salustiano Souto, Luis Álvares, além de Juliano Moreira. Ainda é muito raro encontrar professores negros. Com a política de cotas, aumentou muito a presença de estudantes negros. Estimo que devam ser cerca de 40%. Mas, na minha turma de 1979 era impressionante: eram dois ou três negros entre 160 alunos.

E sobre a presença feminina?

 

É parecido.  Havia aí quase uma restrição legal. E a infraestrutura da faculdade era pensada para estudantes homens e brancos. Pense na questão dos sanitários.   Mas a primeira mulher a se formar na Faculdade de Medicina foi Rita Lobato, gaúcha, que começou os estudos no Rio de Janeiro e mudou-se com a família para Salvador, em 10 de dezembro de 1887. A primeira mulher negra, Maria Otília Teixeira (filha de um médico branco), formou-se em 15 de dezembro de 1909. Hoje, as mulheres são 54% do corpo estudantil, mas ainda enfrentam dificuldades para ocupar algumas especialidades dominadas por homens, como a cirurgia. E ainda existe preconceito, bullying , para afastar a mulher desses postos historicamente reservados aos homens. Antigamente, para a mulher era o que? Pediatria, um pouco de clínica, um pouco de obstetrícia. Hoje já começa a mudar a realidade, mas com dificuldade.  E elas sofrem ainda com brincadeiras, com testes para ver se elas aguentam ou não se manter, principalmente na residência médica.

E como está o grau de resistência dos pacientes a médicos negros?

Eu não tenho dados agora, mas existe a mesma resistência dentro da categoria médica. Tipo, "imagine um negro me atender". Isso é colocado ainda. Um paciente chega ao consultório, abre a porta e é um médico negro. Ele se sente, pelo racismo estrutural, incomodado com isso. Há ainda muita resistência, muita resistência.

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